Coleção Celso Furtado por ele mesmo
CELSO FURTADO POR ELE MESMO
Os mundos desiguais (Les Mondes Inégaux))
Revista de História No. 6 - Hachette Literatura
Outubro/Dezembro 1980
__________________ parte 2/4
Observemos de perto o caso dos Estados Unidos. Na medida em que seu sistema produtivo procura
absorver recursos situados no exterior, o poder competitivo das empresas transnacionalizadas aumenta
em seu mercado interno. Há consequências múltiplas: redução dos investimentos internos, crescimento
mais lento da produtividade, perda de competitividade no exterior. O recurso à desvalorização do dólar,
solução aparente, gera pressões inflacionárias que reduzem a capacidade de auto coordenação do
sistema. A eventual desarticulação de setores produtivos cria desemprego e a degradação dos termos
de troca gera inflação. Há também problemas estruturais de difícil percepção em razão da influência de
doutrinas monetaristas.
Na origem de transformações estruturais citadas, percebe-se a difusão mundial da tecnologia norte
americana, difusão que é facilitada pela tutela política exercida pelos Estados Unidos. Ao crescer, a
economia americana se mundializa e integra em seus circuitos recursos variados (recursos naturais,
mão-de-obra e mercados). Ao longo deste crescimento há expansão de empresas, concentração do
poder econômico e um custo social decorrente do desemprego estrutural crônico. Para a IBM , por
exemplo, poder explorar sua tecnologia em escala mundial é mais importante do que aumentar sua
participação no mercado interno americano. Pode ocorrer igualdade de produtividade entre Estados
Unidos e outros países centrais, homogeneizando mercados e favorecendo as grandes empresas .
Neste processo modificam-se as condições de competitividade em diferentes mercados.
A conciliação de tais tendências com a eliminação de barreiras alfandegárias, favoráveis também
às grandes empresas, exige mudanças estruturais de dificil aceitação geral. A classe política, visando
apenas sua clientela local, não assume responsabilidades que são, naturalmente, do grupo dirigente
de um país cuja economia está estruturada em escala planetária. Para os outros países centrais os
problemas diferem, pois já passaram por um processo de abertura e de adaptação do mercado interno
às novas exigências decorrentes da concorrência estrangeira. Recentemente um número crescente de
empresas optaram pela via da transnacionalização.
A crise da Ordem Econômica Internacional tem raízes nas transformações estruturais da economia
capitalista, frente à tendência de redução da eficácia dos sistemas decisórios dos Estados nacionais ,
ao mesmo tempo em que era reforçado o poder das empresas transnacionais. Conciliar as tendências
verificadas com a eliminação de barreiras aduaneira exigiria mudanças estruturais, entre outras, mas
este é um tema sobre o qual pouco se discute com as clientelas locais, pois a classe política não
assume responsabilidades que decorrem desse novo posicionamento mundial de certas sociedades.
Em outros países o problema difere pois à medida em que foram adotando a tecnologia americana
tais países foram levados a acatar as novas exigências e seus efeitos, o que tornou o mercado interno
obediente às exigências da concorrência estrangeira. Em uma primeira fase, as economias de escala
constituiram importante fator de dinamização; em seguida, a capacidade de inovação do setor expor-
tador preencheu esta função;mais recentemente um número crescente de empresas optaram pela via
da transnacionalização.
Quanto ao países da CEE/Comunidade Econômica Européia, há outras considerações que devem ser
feitas.São nações onde se verificou notável crescimento econômico ao longo das décadas 1950/1960 ,
com base na adoção de tecnologias disponíveis nos EUA. Mas, à medida que avançava o processo de
integração econômica, reduzia-se a capacidade dos governos de conciliar aspirações sociais e objetivos
econômicos. Em decorrência, acumulavam-se problemas estruturais. Efeitos diferentes puderam ser
observados. Países que se mantiveram à frente dos esforços de exportação e que dispunham do apoio
de uma população integrada e disciplinada, caso da Alemanha, puderam dispor de importantes graus de
liberdade em matéria de decisões governamentais . Na ausência de tais condições, a arte de governar
ficou limitada à capacidade de evitar o pior.
Foi sob tais condições que a crise da OEI / ORDEM ECONÔMICA INTERNACIONAL teve suas raízes
ligadas às transformações estruturais da economia capitalista. Foi uma época de redução da eficácia dos
sistemas nacionais estatais, e de reforço do poder das empresas transnacionais. Isto porque uma parcela
dos recursos produtivos ficam inseridos em subsistemas com prolongamentos em outras economias com
objetivos próprios e distintos dos demais.
São diferentes as situações verificadas nos EUA e nos países da Comunidade Européia. Nos EUA, a
posição dominante desse país ao final da Segunda Guerra Mundial, mais sua abundância de recursos
financeiros e tecnológicos , permitiam uma posição privilegiada às empresas americanas situadas em
qualquer outro país. É preciso ainda considerar que a abertura da economia norte americana foi distinta,
pois não ocorreu segundo formas tradicionais (exportação de mercadorias ou de capitais), mas ocorreu
projetando seu próprio sistema produtivo para fora de suas fronteiras. Os benefícios para a sociedade
americana decorreram da utilização de recursos naturais e de mão-deobra situadas fora do próprio país,
e em condições privilegiadas. Dadas as características da economia americana, a forma adotada de
internacionalização do sistema produtivo, nas últimas décadas, refletiu, principalmente, os interesses das
grandes empresas e do capital financeiro.
Nos países da C.E.E, a situação parece ser diferente, pois uma reversão do processo de integração
provocaria importantes reduções de produtividade. Caso fosse então adotada uma política protecionista,
na relação com Estados Unidos e Japão, haveria perdas de produtividade. Tais perdas poderiam ser
evitadas mediante adoção de um processo efetivo de integração dos centros de decisão, o que exigiria,
alternativamente, constituir um autêntico sistema econômico na Europa ocidental. Isto não ocorreu.
A experiência do decênio de 1970, ou mais precisamente do período iniciado com a recessão de 1974-
75, colocou em evidência a interrupção, ou forte inflexão, do processo de convergência da produtividade
nos países centrais. A diferença entre as taxas de crescimento da produtividade na C.E.E. e no Japão ,
por um lado, e a taxa verificada nos EUA, por outro lado, foi anulada pela desvalorização do dólar e por
uma taxa de crescimento dos salários mais fraca, nos EUA. No enfrentamento à nova conjuntura os EUA
demonstraram competência superior à da CEE. Mediante adoção de taxa de câmbio flutuante e de
sucessivas desvalorizações , os norte americanos diferenciaram-se do comportamento de outros paises
e adotaram a via do protecionismo. Mas é o Japão que apresenta a melhor performance na conjuntura
atual, em razão de sua grande capacidade de coordenação interna e de um controle mais efetivo sobre
o processo de transnacionalização de suas empresas.
Se persistirem as atuais tendências de reestruturação do centro em torno destes tres polos, terá fim a
idade de ouro da integração das economias centrais.Uma coordenação mais efetiva terá um preço, que
será a volta a um efetivo policentrismo. É impossível ignorar que a força motriz do capitalismo atual está
em grupos econômicos que se organizam em escala transnacional. Mas como poderíamos ignorar que
a ação destes grupos está gerando um mundo ingovernável ? Como poderíamos ignorar que o poder
que eles exercem é destituído de qualquer legitimidade ?
De qualquer forma, está evidente que o processo de integração do centro não é mais a força motriz da
dinamização do sistema global, os grandes polos centrais tomam distância uns dos outros e o principal
esforço da empresas na transnacionalização dirige-se para o Terceiro Mundo.
Estudo prospectivo que a OCDE acaba de realizar (Face aux futurs, 1979) permite considerar a ação
desses fatores na reorganização da economia mundial . (...) A primeira constatação que se pode fazer
de uma tal análise prospectiva indica que um retorno à OEI - Ordem Econômica Internacional - original,
tal como ela se apresentava durante o período de seu apogeu (1948-1973), beneficiaria principalmente
o primeiro mundo.
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